sexta-feira, maio 16, 2008

Leeeeeento

Pareço cada vez mais um sério concorrente à "velocidade" deste animal. Não escrevo há imenso tempo e, sinceramente, já tenho saudades...
São tempos loucos, de muito cansaço e pouca disponibilidade mental para escrever o que quer que seja de jeito. Por isso, e porque acho que devo manter algum tipo de nível de "qualidade" vou-me abster de pronlogar mais este comentário...


Voltarei a dar notícias... decentes !


D.M.

segunda-feira, abril 21, 2008

Traição


Sinto-me como as muralhas mudas e destruídas após uma investida bem sucedida ao castelo. Das ruínas apenas se vislumbra nos restos fumegantes a outrora grandiosa cidade que ali se abrigava. Como em lendas de outros tempos, fui traído por alguém que julgava me proteger, alguém que receoso abriu a porta das traseiras e permitiu a barbárie que se desencadeou logo a seguir. Largamente superado pelo enxame caótico que semeava destruição a cada paço, isolado da sanidade que ardia ali ao canto, indefesa, insurgi-me como um escorpião rodeado por chamas, procurando o fim e provocando a dor e frustração no invasor...
A confusão era legítima, o pânico era puro, intenso, mas não havia qualquer intenção de me destruir. O meu amigo monstro, abriu as portas dos calabouços e não das traseiras, não permitiu a entrada mas sim a saída de algo nefasto esquecido nas catacumbas... os demónios avançaram sobre os meus olhos vendando-os, empurrando-me gentilmente na direcção do meu fim, amarrando fios nos meus pulsos que, cortantes, faziam de mim uma macabra marioneta. Fiquei assim por alguns instantes, senti-me perdido e à mercê do medo e da ilusão, soube o que se seguiria e por um segundo ansiei o fim. Mas uma voz rompeu o encantamento, a marcha melancólica e repetitiva estava agora silenciada e caia como uma tonelada de pedras sobre a minha cabeça.
Fiquei prostrado e derrotado perante o que havia feito.

O meu monstro traiu-me, deixou-os sair de onde nunca deveriam ter saído, deixou-os rasgar em pedaços irrecuperáveis o que havia construído até ali. Olho-o agora com desdém na sua figura patética e arrependida, a um canto que pelas suas linhas rectas sobressai a disformidade da criatura. O teu dever era manter-me seguro, entre os dois mundos, agora ou eu que tem a chave e poderás apenas assistir ao que faço, ficarás sozinho...

D.M.

quinta-feira, março 06, 2008

Interlúdio

Na infinidade do tempo somos partículas.
Sentimos a cada frase cortante a nossa insignificância.
A miséria e a má sorte são vistas como filmes e não são tomadas a sério.
O destino prega-nos a partida de se repetir pelos outros e por nós.
A cada passo, a cada decisão, vislumbramos o nosso objectivo sempre dois passos à frente.
Não estou capaz de ver as coisas com outros olhos.
As coisas são o que são e são uma merda.
Por vezes temos de cheirar o fedor que emana da vida.
Deixar de disfarçar com perfume o que sempre cheirou mal.
Provar do fel que nos dão todos os dias a beber.
Dar muito mais valor às pessoas que realmente importam para nós.
Dar muito mais valor aos momentos de felicidade.
Tatuar na alma as gargalhadas dum filho.
Ensurdecer com o respirar suave duma criança adormecida.
Partir a campânula que nos isola da realidade e toma-la em doses pequenas.
Desprezar a mesquinhez de pessoas pequenas que só se fortalecem com o sofrer alheio.
Olha-los enquanto falam, ver as suas bocas imundas mexer e ouvir apenas aquele respirar.
Vê-los vociferar imundices e encher a sala com as gargalhadas.
O mundo pertence aos impuros, mas a nós pertence-nos a alma.
Dentro de nós não há limites, a força enaltece-nos.
Por fora os sentidos embriagam-se com ilusões.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Longe de mim


São precisos dias incessantes de coisas desinteressantes, de actividades estupidificantes, de caras repetitivas, de máscaras plagiadas, de tumores que não se vêem mas que nos comem por dentro, para darmos valor a este nosso cantinho.
Confesso-me afastado de mim estes dias. Mas não sabia que precisava deste meu refugio como afinal preciso. Fiquei baralhado com a anestesia da rotina que teimava em me reclamar para as suas fileiras que engrossam de dia para dia, resisti...
Não queria ver que, a pouco e pouco, perdia o contacto comigo, perdia o sentido das coisas que tanto tempo me levaram a enxergar.
Mas resisti, tento voltar à exploração em que me empenhava. Vou descobrir mais, vou voltar ainda com mais força.
Pode-se dizer que agora nunca mais poderei desistir de mim.

D.M.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Superfície

Não resisti ao luar. Tive de deixar as profundezas hoje para admirar uma lua cheia, amarelada envolta num véu de névoa que estende a sua luz ainda mais longe. A noite deixa de ser silenciosa e as luzes mesmo dos pontos mais distantes do universo cantam e dançam deixando rastos na memória. Fito o céu olhando o passado que pertenceu ao amanhecer da humanidade, e a um tempo em que ainda não existíamos. Fico mais e mais pequeno, fico insignificante, não percebo o meu papel nesta grandeza das coisas...
Imagino fixar o firmamento uma eternidade de noites, memorizando o percurso de cada furo luminoso no manto negro que me cobre. Fico imenso, sem principio nem fim, sem dor nem carência, sem ansiedade, apenas com o olhar fixo nos desdobrar de cada ponto em milhões de novos pontos até à dispersão me deixar de vez nas trevas. Flutuo alheio ao destino da humanidade, sem tempo.
Um arrepio dez-me recolher o pescoço para dentro da gola do casaco. Estou pequeno, infinitamente pequeno e não percebo o meu papel nesta grandeza das coisas.

D.M.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Dualidade deliciosa


Não será de certeza a última vez que sou encarado como sendo demasiado pessimista ou tendencialmente negro na minha escrita. Dou espaço para que o meu lado mais censurado tenha a sua voz, que tenha a sua expressão e que seja bem sucedido no descarregar do fardo que é o seu silêncio. Inúmeras vezes vi-me a censurar aquilo que sentia ser o que devia escrever em prol de valores que me sufocavam e me pediam para gritar mais baixinho, para evitar que usasse certas palavras ou expressões, para que fosse politica e moralmente correcto! Fiquei tão farto que quase rebentava e era engolido por camadas de hipocrisia e assim ia deixando o tempo passar e nenhuma outra letra saia deste teclado. Fiquei que tempos a fixar o monitor e a ler o que parecia nunca ter surgido da minha mente, sempre desconfiado da veracidade de tais textos.
Protestei dentro de mim contra mim! Clamei a alto e bom som a cobardia da minha atitude e senti-me quase adolescente de novo. Agora que sinto que os meus dois lados completamente distintos se tocam mais do que nunca e se definem como opostos totais, sinto-me mais rico, mais consciente da minha dualidade. Como posso permitir que o amor e a dor passeiem lado a lado num mundo só meu sem chão nem céu? Feito de pequenos cenários ora negros ora luminosos e cheios de esperança. Deixo a luz esgueirar-se por vezes no breu, mas depressa a recolho e deixo-me nadar livremente neste ouro negro. Cada gota deste lago deitei-a eu do meu sangue, da minha alma e do meu ser, cada recanto do chão contornado pelo líquido vil deixei-o eu que nascesse, cada tronco seco e despido matei-o eu para que se completasse a decadência. Pintei com as cores mais frias e cortantes o cenário que construía para deixar o meu monstro à solta. Dei-lhe recantos e portas e labirintos e um sem fim de túneis inacabáveis, sempre para que não se sentisse de novo amordaçado. Visitei-o vezes sem conta e sussurrou-me ao ouvido as terríveis imagens que um dia escrevi e outras que ainda não tive coragem. Ele sabe o que me tem que me dizer, sabe que eu devoro cada palavra e cada imagem e cada pensamento, sabe que eu os misturo numa fornalha de profanas chamas verdes. Dou-lhe voz e ele da-me paz...
Estamos sempre a pregar que não somo perfeitos, que temos que aceitar os outros com o que têm de bom e de mau, mas nem sequer somos capazes de o fazer connosco! Aceitem-se! Eu estou-me a aceitar.

D.M.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Rebirth


Distância que me escorraça de mim, que me faz indefinido aos sentidos e torna-me numa silhueta difusa que se adivinha humana. Fico temente ao futuro que adivinho sem acreditar e anseio pelo alívio do fim, quer este me traga paz, nova vida ou vazio. Sinto-me no limiar dum qualquer foco que ilumina o caminho a todos, vejo-o e temo-o como se me queimasse a pele e me juntasse às fileiras de autómatos que engrossam a cada segundo que as vislumbro a desaparecer no horizonte. No meu canto escuro procuro o conforto da cegueira mas sou traído por quem o habita. Pouco a pouco sinto a pele a endurecer querendo-se tornar no exoesqueleto que outrora me privou da riqueza e sabor das emoções verdadeiras, boas e dolorosas. Fito passivamente o verme que me envolve na sua seda para que no casulo volte a ser o que fora outrora. Frio, escorre pelo meu braço deixando os seus fios, levando as minhas sensações na sua marcha fúnebre. Grito aos meus braços para que o atirem de vez para o abismo de onde nunca deveria ter ressurgido, sinto-me impotente mas com esperança numa luzinha pequenina que brilha... não me cega nem me leva para o rebanho de inconscientes, desbrava caminho pelos folhos de peles que outrora vesti e vejo-me no centro desta amálgama de células mortas feto, limpo, frágil e deslumbrante. Como pôde tal ser sobreviver a tudo a que o expus? Atrás dele o monstro olha pacientemente para mim enquanto tento compreender como renascer de tanta podridão. Olho-o nos olhos e adivinho o ser que soterrei naquele monstro porque quis que ficasse ao meu lado, o quanto o privei da vida e do saber para que guardasse a porta de todos os verdadeiros monstros que habitam a minha segura e silenciosa escuridão. Sempre tive o meu lado negro bem perto do coração, mas nunca me tinha apercebido que tinha lá entrado, deixado marcas e gasto tempo que nunca mais vou recuperar. Ele já percebeu que o quero deixar ir, para onde quiser, mas não me deixa. Protege-me desde sempre e agora quer ver-me renascer e ser aquele que na sua mudança o vai levar ao repouso... poderei pedir que esperes pelo meu despertar? Já esperaste tanto...

D.M.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lurking....


A espreitar da escuridão, a criatura outrora semente do mal ergue-se e reclama a minha atenção. Cobardemente invade os meus pensamentos e faz-me divagar sobre o sofrimento que posso causar a quem me consigo aproximar mais. Fantasio baladas negras de gritos enquanto desfaço em dor o olhar surpreendido de quem outrora confiara em mim. Sinto o estalar dos teus ossos debaixo do meu punho cerrado e deixo-te sem fôlego. A cada inspiração a dor aumenta e eu aperto mais para que saibas que não foi sem querer...
Sabes bem o que queres de mim. Alimentas o meu apetite de negrume e afias as garras a cada pulsar nervoso que manifesto ao imaginar o que crias para mim. Saboreio cada sensação, cada reflexo muscular que controlo, cada amargo que a doce me sabe na boca. Sabes que me enfeitiças e tenho de te contar para o mundo senão ao dormir me acompanhas e ao acordar não me deixaste ainda.
Sinto um malogrado prazer em imaginar atrocidades que fluem livres de censura quando menos espero. Cada palavra ou frase que se formam e se agrupam neste "nocturno" são notas duma obra irrepetível e insuportável por outros. Receio o que sucede quando sabem o disforme que me habita o pensamento.

Estava com saudades tuas monstro... bem vindo.

D.M.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Renascido...


Sinto-me como se duma cobra me tratasse. Algo no meu interior excedeu o confinado espaço que sempre lhe reservei e tenho de perder a pele para dar lugar a outra mais flexível. Dei-me o direito de deixar de me proteger do amor que me rodeia, de sentir intensamente cada beijo, carinho, cada olhar meigo ou mais intenso, vibro a cada onda de choque que sai dos teus lábios e do teu olhar.
Vejo as minhas entranhas ruir de tão podres que estavam os seus alicerces. No entulho predominam as camadas de cimento e metal que desajeitadamente, mas de forma sempre eficaz, acrescentei à armadura disforme que me impedia de sorrir e amar com vontade. O pó ainda não assentou totalmente e fico ofegante ao vislumbrar este espaço tão aberto e exposto que é agora o meu peito. Olho para os escombros e já imagino o que posso construir ali. É lindo amar.
Porque passei anos e anos sem me deixar levar neste rodopio de emoções fortes, de sensibilidades quase metafísicas, não sei dizer. O mundo encheu-se de cor, de intensos vermelhos e laranjas e também dos cinzentos, azuis e demais cores frias. Desta mescla de tons e cores primárias surge agora uma percepção mais clara e intensa das coisas.
Estar assim tem tanto de bom como de doloroso, mas penso que a dor é boa conselheira e nos previne de nos magoarmos demais ou voltar a repetir erros passados.

Se não aceitarmos a dor como uma parte integrante do amor, nunca o viveremos completamente, ficamos incompletos.
D.M.

sábado, novembro 24, 2007

Quente-frio


Entre nós existe luz, quente e aconchegante como se o amor pudesse assumir forma. Cola-nos os corações dispostos quando estamos juntos. Envolve-nos como nosso cobertor mais quentinho, protege-nos num casulo e deixa-nos descansar.
Entre nós dois existe luz, fria e distante que nos lembra que apesar de partilharmos o espaço, estamos em universos distintos. Arrefece-nos o espírito e como o frio cortante dos polos, faz-nos adormecer e desistir de lutar. Nesta luz, descansar é morrer, baixar os braços e deixar que o frio domine.

Quero só a luz quente, dou-nos calor do meu peito e aguardo nele a tua morada.

D.M.

terça-feira, novembro 13, 2007

Como te vejo


Não passa um dia que não te olhe à procura da definição do que vejo quando te fito. Poderia esbanjar linhas e linhas com os detalhes que acho interessantes sem nunca preencher o significado daquilo que realmente vejo em ti. Neste novelo de cordel remendado a que chamo mente, entre nós cegos e camadas de inutilidades, esgueiram-se rapidamente as palavras certas a dizer, fogem de mim como se do seu fim eu me tratasse. Parece-me que se as conseguir proferir
quebrar-se-á o encanto da incógnita que é o amor.
Vejo em ti o olhar agri-doce duma vida feita de marcas profundas que te fizeram a mulher que és hoje. Tremo quando o teu cheiro faz disparar todos os alarmes e quando o teu sorriso me hipnotiza o olhar. Na ponta dos meus dedos vive para sempre a memória da suavidade da tua pele e da textura dos teus cabelos. Ouço o bater do teu coração quando me colo ao teu peito e acalmo na doçura da tua voz. Vejo-te com os cinco sentidos e sinto-te mais do que nunca para além dos mesmos, quero inventar mil palavras novas para que compreendas o que quero te dizer, quero compor a melodia perfeita para que embales naquilo que sinto, quero-te bem pertinho para nunca mais te deixar de ver.
Vejo-te como alguém de quem gosto muito que faça parte da minha vida, vejo-te como alguém que pode voar bem mais alto e que ainda me vai olhar de cima mesmo durante os meus "voos".

Não te vejo... sinto-te.


D.M.

segunda-feira, novembro 05, 2007

AAAAAAAAAAAAAAAAAAGH !

Desculpem-me, mas hoje só vim aqui para gritar! AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH !

Tenho dito!

D.M.

O infinito e o infinitamente complexo

Dei por mim a retornar à "laje" para deixar mais alguns pensamentos. Desde que aprendi a ler que tentei aprofundar o meu conhecimento do indefenivel, do inconcebível, do infinito e do espaço sem nunca imaginar o complexo e infindável universo das emoções. Passei tantos anos a olhar para fora, a observar os outros, a aprender com eles e com as suas vidas, a moldar o meu feitio ao que achei mais correcto, a postular sobre tudo e mais alguma coisa sem saber realmente que o maior mistério ainda reside no nosso ser.
Parece-me algo despropositado admitir que só há pouco tempo me comecei a conhecer verdadeiramente, a saber expressar e sentir as emoções como elas devem ser vividas. Enquanto crianças fazemos tudo isto de uma forma completamente instintiva, à medida que crescemos aprendemos a nos "defender" das agressividades do ambiente e desaprendemos a sentir. Depois de refinar os meus sentidos e sentimentos deixei de ter espaço para a variedade e para a expressão. Carrego ainda uma tonelada de coisas que quero exteriorizar e enfrento agora um único dilema, o de assoberbar quem amo com os anos de "arquivo" que anseio por mostrar.
É como aprender a andar. Começamos por passos pequeninos e depois tentamos sem nos segurar-mos à mesa, depois até damos uns passitos mais ligeiros mas sempre com cuidado para não cair e não se magoar. Sinceramente acho que já estou no "passito ligeiro", tenho medo de me magoar, mas o fascínio da descoberta faz com que a dor seja apenas útil na decisão do próximo passo e não na determinação do meu caminho.

Estou a descer às profundezas do meu ser, estou a deixar que espreitem... tremo! O meu amor vai-me valer! O meu monstro olha, desconfiado, esta abertura que agora mantenho, resmunga baixinho o temor que também sente mas não me vira as costas.


A imensidão dos sentimentos é apenas comparável à do universo, a complexidade do sentir no entanto, não tem par.

D.M.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Perra !


Ando meio cansado de usar infindáveis listas de figuras de estilo para descrever o que em mim se sente. Pregadores, freaks, imagens tétricas que iludem o olhar destreinado e afastam quem não vê por entre as linhas.
Fiquei alguns dias sem escrever uma única linha, sem "despejar" nada e o resultado foi conclusivo. Preciso de gritar o que me parece entorpecer. A porta que antes se abria ante os meus pedidos mais profundos e deixava ver mundos imaginários sem fim nem tabus ficou perra. Foi usada continuamente, em silêncio, sem que pensasse que um dia estaria danificada do uso indevido. Todos os dias forcei a entrada e fui ofuscado pelo dilúvio disforme e profano de tantas e tantas imagens silenciadas.
Fito a porta com algum receio de não ser capaz de aceitar o que carrego, de ter de a cuidar para que abra melhor e que feche rapidamente ao meu pedido. Ouço ainda o respirar do monstro que aguarda pacientemente pela minha vinda. Ao seu comando todos os outros recuam e esperam que chegue a sua vez. Ele sabe que o mundo real tem apertado a ferrugem nas dobradiças, que a cada palavra que escrevo dou espaço para me descolar mais uma vez daquilo que me rodeia, ele também sabe que a linha que me separa do seu mundo é fina e que por si só não é uma barreira. Imagino uma linha de giz desenhada no chão para a qual aponto e grito "daqui não passarás!". Tento acreditar que ele respeitará a fronteira e não chamará a sua orde para me arrastar para casa.
Parece-me que um dia fecharei de vez os olhos a este mundo e poderei então deixar-me ir para o lugar de onde surgi.
Não há pressa... o tempo é inevitável e certeiro.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Mais anormalidades




Desmonto a vida em imagens, em pequenas cenas que, para mim, representam acções, sentimentos e palavras. Como uma cor pode sugerir um estado de espírito para muitos, uma pessoa nua e carbonizada num campo deserto de gelo mostram uma amálgama de sentimentos para mim. Vejo as coisas que sinto mas nunca sei aquilo que sinto realmente. A abstracção é contínua e vazia dum sentido lógico, as imagens sucedem-se repetida e teimosamente sem deixar palavra do que me querem dizer. Vejo-as, vivo-as e deixo-as fluir para que saiam, mas ficam.
Vejo um homem costurado, feito de muitos bocados que não são seus. O seu corpo foi irremediavelmente adulterado pelas camadas de pele diferente que compõe a aberração que ele é hoje. Nalguns retalhos a precisão e o cuidado quase cirúrgicos traduzem um carinho especial. Parece que cuida daquele pedaço duma maneira diferente e terrivelmente contrastante com o traçado irregular dos pontos infectados daquilo que não quis por em si por vontade própria. Os osso das canelas e as rótulas estão agora visíveis, mostram um desgaste rastejante por medos e incertezas que o reduziram à prostração. Terá de procurar mais bocados para remendar o que parece irremediável.
Na dor constante que o agonia já não existe manifestação, faz parte dele como a necessidade de respirar ou beber, alerta-o e mantêm-no de guarda dos perigos que só ele percepciona. Cego de realidade caminha sem rumo e sem sonho, caminha porque acha que deve caminhar e vive porque assim se tem proporcionado.
A alma já não habita a carcaça decadente e despersonalizada, observa-o dum plano superior com dó daquela mente sem esperança. Por trás de si arrastam-se fluidos, fios e tubos que se prendem ao novelo que o envolve e vive por ele com impulsos e ruídos metálicos duma máquina que ainda o quer para si.
Há-de cair... chegará finalmente ao fim e será parte doutra manta de retalhos, num outro sítio qualquer.



D.M.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Doi-me o coração


O meu menino está doente. Olhar para ele neste estado corta-me bem fundo no meu ser, faz-me desejar que fique bem instantaneamente ou que de alguma forma eu possa suportar o seu desconforto e dor.
Andava ele tão bem todo este tempo e de repente sou chamado à realidade com a suavidade dum berbequim a perfurar a testa. Afinal o problema não desapareceu, esteve sempre lá escondido e agora ameaça tornar uma comum gripe ou constipação em algo bem mais sério. A cobarde age pelas sombras e fere os anjos que dela não percebem nada. A besta nem sequer dá para ser vista de maneira a nos prevenirmos, ela espera que o anjo esteja desatento e mais debilitado e arma logo das suas.
Gostava de me tornar pequeno, mas tão pequeno que pudesse procurar o âmago da besta e o cortasse fora para sempre, que o expulsasse do código do meu anjinho que precisava era de estar bem e divertir-se.
Hoje tive de tomar medidas mais sérias, assumi uma responsabilidade em prol do conforto e bem estar do meu menino, entristeci e fiquei confuso e ele quando recuperou um bocadinho das suas forças veio ter comigo, sorriu e disse-me que estava com saudades minhas. Completamente desarmado pelo amor e carinho que irradiava do seu sorriso e do seu afago, não fui tão forte como ele e mantive o semblante fechado, porque sou adulto e tenho de pensar nas coisas seriamente.
Dorme, exausto dum dia de médicos e medicamentos e todos os sintomas desagradáveis que ainda passa. Parece que nem foi assim...

Doí-me o coração, mas não deveria ter dor o meu menino.

terça-feira, outubro 02, 2007

Quando a alma escurece


Hoje é um daqueles dias em que não se vislumbra raio de luz cá por dentro. Sinto-me a definhar lentamente, sem que me aperceba, pouco a pouco deixo-me ser devorado e sorrio sempre...
Porque não consigo fazer nenhum sentido, nem me apetece falar do banal, porque estou farto de bradar o que acho correcto, porque ninguém acha que os sonhos são assim tão importantes, deixo o monstro espreitar e deleitar-se na sua demência.


Estou a olhar para dentro... não se ouve nada nem nada se vê. O meu ser esvaziou-se de tudo por não ter mais chão para todas as coisas que procuro fixar. Desloco-me sem tocar no chão inexistente na esperança que os meus olhos se habituem à escuridão e descubram um caminho no vazio. Esfrego os olhos com força e continuamente até que me parece ver uma ténue linha vertical de luz ao longe, muito longe. O silêncio sufoca cada palavra que tento gritar na direcção da luz. Sem distância nem movimento a luz parece aproximar-se e revela um contorno duma porta. Ouço finalmente um som, um ranger raro que ecoa nas paredes invisíveis e gela o peito. Dali surge uma cabeça disforme e negra, apoiada em membros assimétricos numa espécie de corpo curvado. O meu monstro veio ter comigo, deixou-se ver e sentir. Apesar do seu ar repugnante e letal, conforta-me na escuridão e dá-me força para enfrentar mais um dia neste mundo ainda mais feio. Toca-me de leve no ombro e pede para que faça parte de mim para sempre, sem palavras descreve o quão forte ficarei se aceder ao seu desejo, a seriedade e agressividade que farão parte da minha vida se o deixar entrar... Penso por momentos... Tempos inacabáveis acrescentam à pressão que sinto a ceder, ele olha-me com os meus olhos como se soubesse que será inevitável.
Ainda não o deixei entrar, está à porta a espreitar e a decidir até quando lá ficará sem forçar a entrada.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Entardecer

Por causa do entardecer pensamos no tempo que se gasta sem fim nem começo. No fim de cada dia, estamos quase sempre demasiado cansados para avaliar como gastamos as horas de luz que nos foram entregues. Procuramos olhar o entardecer como o por do sol, algo que ocorre sempre, dura alguns escassos minutos e que por vezes é deslumbrante ou apenas o sinal do fim de um dia que ansiávamos acabar.
Escolhi esta fotografia propositadamente porque está ligeiramente desfocada. O entardecer tem múltiplas nuances e variantes, pode ser literal, romântico ou até mesmo dramático. Representa a beleza natural no seu esplendor e insuperável variedade. Assim, olhando a fotografia desfocada, alguns tentarão imagina-la em foco e como seria deliciosa para o olhar se desvendasse todos os seus detalhes, outros fitarão com desdém do fotógrafo que poderia fazer melhor, por fim há aquele pequeno grupo de pessoas que imaginarão a fotografia mais desfocada e impressionista, deixando apenas pistas das formas e dando maior realce à variedade de tons que nela se escondem.
Eu olho-a como a representação do fim de mais um ciclo, o fim de uma vida e o antecipar do nascimento que se anseia. Tento olhar a minha vida assim, como se fosse um nascer e um por do sol. No inicio e no fim do meu percurso haverá sempre beleza e harmonia, preciso mesmo é de olhar pelas minhas "horas de luz" e não deixar que sejam menos que os extremos da minha existência.

Um bem haja aqueles que conseguem aproveitar ainda a sua "luz" mesmo quando se viram privados dela.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Freak... parte 2... ou 3, já nem interessa!




Nem com o tempo as coisas mudam. Aquele velho ditado que dizia que "o tempo é cura para tudo" e o outro que afirmava "só o tempo dirá" sem esquecer o "é uma questão de tempo", fazem do tempo uma espécie de deus que todos nós adoramos e deixamos que nos molde. A sensação que habita os recantos da minha mente, é de total pasmo! Como posso eu deixar que estes e outros dizeres, fruto do saber popular, façam com que entre no ciclo? Que ciclo?! Parece mesmo que estou a olhar um aquário pelo lado de fora! Estou a ver tudo e os "peixes" andam na sua vida sem saber o quão extenso é o mundo que os rodeia. Se pegamos na história e olhamos bem para trás posso plagiar uma frase do cartoonista Quino "Evoluímos tanto, criamos tanto e como as intenções pouco mudaram!". O ciclo não é mais do que a tendência natural para nos sobrepormos e superarmos continuamente, para exagerarmos e criarmos sem freio, para menosprezarmos a nossa essência e car no egoísmo de mudar o mundo para nos servir melhor.

Era no futuro... digo-o no passado porque dele apenas restou uma memória digitalizada para hipotéticos Arqueólogos que não humanos... O dia começava com um despertador auditivo, configurado especificamente para cada pessoa, para um acordar mais eficiente. Uma leve picada completava o trabalho de nos acordar com o coktail que estimulava o córtex e os músculos. O quarto diminuto era rapidamente substituído pelo cubículo de limpeza a seco, a água era uma bebida para ricos de tão rara que se havia tornado. Saia pelo elevador expresso atrás de tantos outro que partiam para a sua função diária a velocidades alucinantes, por tubos transparentes que nos deixavam vislumbrar a amálgama de estruturas disformes e altamente avançadas que tínhamos criamos. Eu fui manipulado geneticamente para desempenhar um trabalho difícil e letal para qualquer outro humano, fazia manutenção dos núcleos de fissão nuclear e do sistema magnético que alimentava todo o movimento da cidade-estado...
Numa dada ocasião tinha perdido uma perna num acidente com uma comporta que teimara em selar a câmara de fissão 3B antes que conseguisse sair. Tive de me arrastar até à enfermaria na área descontaminada e lá reconstruiram o membro com CCA (crescimento celular acelerado). Fiquei de baixa por dois dias até a perna estar completa. Senti que não ter um corpo, ter sim uma máquina com peças substituíveis...
Andava outra vez a pensar em ter filhos, mas precisava de autorização e de sorte para que eles fossem aprovados e seleccionados para uma manipulação que lhes desse uma vida melhor que a minha.
Os 375 milhões de habitantes na cidade em que eu vivia, faziam desta um local muito parecido com os reactores que operava. O equilíbrio era precário e apenas ajustado milimetricamente para compensar alterações. Os reactores e todo o equipamento que alimentava a cidade estava sempre a ser levado ao limite com as necessidades crescentes da população apesar das normas limitativas da direcção geral.
Depois de um dia de trabalho, passava cerca de duas horas em banhos químicos de descontaminação, depois ficava ainda mais meia hora num campo magnético para reduzir a radiação a níveis que não fossem letais para outros que não fossem como eu. Chegava a "casa" e enfiava-me na cama, com simples comandos verbais ordenava o meu espaço, pedia o jantar que invariavelmente era CCS (Cambell's Complete Soup). A parede recolhia a mesa e o prato enquanto a música ambiente continua a fundir-se com os ruídos de servo-motores que fazem surgir a casa de banho da mesma parede.
Deitava-me e pedia que aparecessem no ecrã as imagens de animais e árvores que existiam noutros tempos. Nem imagino a que cheiravam as plantas e os animais, os sons tinham sido gravados e aumentavam as saudades daquilo que nunca tive.
Fechava os olhos enquanto ouvia o uivar duma criatura que se chamava lobo, imaginava-me a seu lado com o frio da noite a aguçar os meus sentidos. Adormecia e logo acordava para mais uma injecção de realidade.
A minha série precisava apenas de 4 horas por dia para descansar...

segunda-feira, setembro 24, 2007

Travelling without moving....

Tenho um mundo secreto.... Guardo-o bem escondido de toda a gente, é só meu! Mas, às vezes preciso que se saiba dele, preciso que as suas maravilhas encantem outros.
Estava a ver as fotografias tiradas nas férias e cruzei-me com esta, tão simples e pacífica, fez-me viajar. Fecho os olhos e navego pelo lago onde as raízes alimentam os juncos e abrigam os ninhos. Ouço a água somente quando remo por ela que de outra maneira não existiria como som. Ao longe vêem-se as casas e o bulício das pessoas e carros a correr pra parte nenhuma. Elevo-me com as garças que se assustam comigo, grãos de areia serpenteiam por entre ruas como se de formigas se tratassem. O ar, ensurdecedor, gela-me a cara e o corpo, quase dormentes. O horizonte cresce e curva-se, muda de cor e presenteia os seres alados com visões mágicas do mundo. O sol derrete-se nas águas do mar e precipito-me em seu encalço, embato nas ondas violentamente e sou acariciado pela espuma que se forma em meu redor. Primeiro o silêncio, depois silhuetas de ninfas que me espreitam na água baça e turbulenta. Paro um momento e embalo no rebentar das ondas na praia, cada vez mais distantes, cada vez mais escuro. Toco no fundo, cego, gelado e a sentir as vibrações de cetáceos que cantam melodias mais antigas que a humanidade.
Abro os olhos e vejo de novo a fotografia. Sorrio ao de leve a pensar o quanto as imagens me fazem viajar... para tão longe.

Fui sem ir e vi sem olhar, viajei às alturas do céu e às profundezas do oceano, bebi da minha imaginação e embriagado sorrio com prazer.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Introspecção


Parei um momento. Acho que tenho de respirar fundo e aproveitar este raro momento de clareza. Estive a reler o post anterior (e mais uma vez encontrei um montão de erros) e fiquei surpreendido com a reacção que provocou, que foi perfeitamente oposta à que eu esperava. Afinal posso deixar sair aquilo que constantemente escondo por vergonha ou por já saber a reacção. Decidi por isso continuar a dar asas mesmo às mais absurdas das minhas ideias. E seguindo o exemplo anterior, faço das próximas linhas uma ausência real de objectividade e lógica. A introspecção como a vejo hoje...

Descalço, sentia cada pedra escaldante no leito do lago seco. A cada passo que dava estalavam as placas de terra ressequida e delas se formava um pó que lentamente se acumulava por todo o meu corpo. O Sol impiedoso rasgava camadas de pele rindo-se de não haver abrigo à sua tortura no horizonte. Parei de andar, pronto a desistir de tal demanda sem destino definido. Senti as pernas a fraquejar até cair de joelhos naquele vazio escaldante pintado de luz e castanhos. Mergulhei os dedos no solo árido numa procura desesperada por água sem me aperceber que estes se alongavam e adquiriam perfis lenhosos de raízes. Sentia-os a perfurar cada vez mais fundo, mais frio, mais húmido. Saciei a minha sede e vi-me preso naquele lugar desprovido de vida... Debati-me o mais que pude e apenas me apercebi de como o que restava do meu corpo ia lentamente transitando do estado de carne para o lenhoso. À minha volta começaram a surgir caules inúmeros e verdejantes como que a me darem as boas vindas à minha última morada. Pestanejei inúmeras vezes na esperança de tudo ser apenas fruto do Sol maldito que recosera o meu cérebro. Quando abri os olhos pela última vez, olhei para o horizonte e o nada continuava infinito, castanho e quente, apenas a vida surgia em meu redor numa dança vagarosa que brevemente me iria cobrir na totalidade. Hoje apercebo-me do nada que criei, como a vida está mesmo ao nosso redor e só a vemos quando ela se torna sufocante.

Tenho de me mover outra vez...

quarta-feira, setembro 19, 2007

Freak

Não posso mais debater os conceitos de normalidade, inteligência nem das maneiras como vislumbramos o mundo porque na verdade não o vemos. Hoje quero apenas falar daqueles que procuram o inexplicavel como uma forma de exercitar a sua imaginação e de afogar a enfadonha realidade do dia-a-dia. Não foi há muito tempo que o senhor meu patrão se referiu à minha pessoa como o "freak". Pelo que sei, este termo foi dado a um movimento cultural e musical nas décadas de 70 e 80, ora visto que eu apenas teria idade para brincar à bola (que nem o fazia muito bem!) ou ver desenhos animados, depreendi que sua excelência usava o termo duma forma mais literal. Ainda fiquei alguns momentos a digerir tal apreciação e a tentar coloca-la num contexto que fosse lógico ou que encaixasse de facto com o que eu acho de mim e depois desisti. Fica claro que padrões de comportamentos e a inserção dum sujeito num dado grupo é a melhor maneira de tranquilizar a ignorância de quem não nos conhece.
Como não costumo gostar de ter fama e não ter o proveito, vou aproveitar para "avacalhar a cena" e justificar o rótulo que me foi "colado", vai daí que as próximas linhas podem estar bem longe daquilo a que se chamaria um texto normal. Aos que não gostam deste princípio, peço desculpas pelo tempo perdido... não peço nada! Tava a brincar!

Nesta maravilhosa noite húmida e fria vislumbro a janela aberta dum prédio vizinho de onde escorrem milhares de litro de melaço amarelo ambar que cai silenciosamente até à rua onde espectantes, as pessoas deixam-se envolver na pegajosa matéria que os vai conservar assim para todo o sempre. As árvores que ardem ao longo dos passeios iluminam a macabra cena e dão um ambiente acolhedor aos que ainda agora se juntaram ao rebanho sacrificial.
Da janela que ladeia a cascata dourada um homem ri descontroladamente enquanto atira mulher e filhos para o lago que agora já escorre para os campos cultivados que se estendem por entre carvalhos andantes com centenas de anos de história materializada sob a forma de longos ramos.
Uma vontade quase irresistivel invade a minha mente e vou imediatamente buscar os óculos de mergulho para que veja bem assim que mergulhe na lenta onda que se dirige à minha varanda.
O silêncio é dourado e translúcido, aquece-nos apesar de gélido e nos impedir os movimentos.

O tempo pára e vejo-nos a todos dentro dum globo na mão de alguém maior que observa a cena a em silêncio...


Freakish.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Para além dos sentidos


Enquanto tiver a capacidade de me questionar, posso dizer que afinal não sou aquele caso perdido que pensava ser. Já passaram alguns anos desde que o meu cepticismo foi posto à prova, que a minha lógica foi confrontada com mais uma questão sem resposta, ou como me tento convencer, com uma incrível coincidência. Neste fim-de-semana que passou "senti" algo, alguma coisa alterou o meu estado de espírito tão rapidamente que poderia ser diagnosticada bipolaridade. Sem a intervenção consciente, tomei atitudes e percorri passos inéditos de maneira a satisfazer um ritual nunca antes celebrado.
Perguntei-me o que se estaria a passar e por que raio estava tão afectado com uma manifestação física de arrepio e a sensação inexplicável de que algo não estava bem. Como de costume ignorei e passei à frente porque não tinha lógica, nem mesmo nenhum cabimento especular sobre uma abstracção. No fim do dia, taciturno, respeitei o cansaço do meu corpo e adormeci.
Na manhã do dia seguinte recebo uma mensagem que relata a coincidência e esmaga-me a razão. Milhões de sinapses explodem na minha cabeça numa procura desesperada pela explicação, sinto ferver por dentro e o corpo toma o lugar do cérebro que em mais nada pode ajudar. Não explico, não compreendo, sinto um calor na cara e os olhos vertem um coctail de frustração e tristeza.
Agora que "já passou", tenho tempo de analisar e dar-lhe de novo o rótulo de coincidência. Só que desta vez estou a pensar nas outras vezes e de como as coincidências são casos isolados, raros e duma aparente simplicidade que assombra o mais céptico dos cépticos. Não são exactos nem precisos, pecam pela falta de detalhe e orientação, mas abusam da emotividade e fazem sentir tudo aquilo que não pode ser dito em palavras.
Assoberbado por perguntas sem resposta, forçado a olhar o dia com lampejos do sobrenatural, esfrego os olhos para focar de novo no que realmente sei que existe. Conforto-me com o trabalho, penso nos outros e no que lhes faz o dia ficar mais ou menos colorido. Digo uma piada ou duas mas não consigo evitar o fechar da minha cara.

Fico furioso! Não consigo racionalizar nem explicar nem mesmo teorizar! As coisas são como são e pronto. Explicar é infrutífero, cansativo e desnecessário.


Foi só mais uma coincidência...

quinta-feira, setembro 13, 2007

Colour blind


A veia tem estado negra ultimamente, por isso decidi pingar este lugar com um bocadinho de cor a ver se animo as hostes (especialmente as minhas).
Como a expressão plástica nos pode elevar o espírito e quebrar os mais restritivos pensamentos que nos arrastam para baixo como se de uma grilheta se tratasse. Ver as cores, aproveitar o sabor e calor que nos transmitem sem no entanto lhes tocarmos, respirar a paisagem inspirada dum pintor qualquer, admirar os detalhes das mãos dos intervenientes na cena e o quão humanos nos parecem quando não passam de personagens de óleo ou acrílico....
Pode-se afirmar que o quadro poderá ser a janela com a paisagem de sonho ou o vislumbre da alma materializada de alguém. A escultura torna-se orgânica mesmo quando abstracta, fere os sentidos com a sua rudez e suplica-nos uma carícia nas texturas que a compõem. A fotografia será sem dúvida a única máquina do tempo que temos ao alcance de quase todos, perpetuam-se sorrisos e expressões, umas engraçadas, outras tristes, outras sem ninguém mas todas mostram como quem está por trás da camara vê o seu mundo e espreita o passado. A dança é a expressão física do som e das sensações que nos são transmitidas por uma música ou amálgama de sons que electrizam os músculos numa incontrolável vontade de seguir a melodia ou desmonta-la na arritmia do caos.
Da expressão plástica levamo-nos pelas ondas suaves dum blues ou soul que nos enternecem ou aquecem, dos arrepios dos violinos de Vivaldi às sérias ressonâncias dos violoncelos de Schubert, ao negrume cativante de Bach às epopeias de Verdi, todos eles são mestres na personificação dos sentimentos em música. O caótico mundo do techno que explora a nossa apetência mais animal pelos sons nas suas inúmeras variantes, a adrenalina que os músicos de rock e metal nos fazem sentir quando libertam as garras sobre a guitarra e como nos colam ao chão com as suas baladas inimitáveis.
Por vezes nem estes mundos são suficientes para nos afastar do facto de que por vezes, as cores são só cinzentos e a música será só um ruido ao qual nos habituamos e treinamos o ouvido para a esquecer.
Ultimamente não vejo as cores, nem me arrepio com a música. Parece-me que preciso de ser deslumbrado novamente por algo ou alguém. Queria ser miudo outra vez!!

Com a inspiração a preto e branco...

quarta-feira, setembro 12, 2007

Biomecanoide em fuga...


Hoje estou cansado... quase ao ponto de ficar transparente e me deixar desvanecer sem medo. Após uns ensurdecedores momentos na noite, sinto o desejo de ador,ecer em paz, sem mais acordar, sem mais ter de me elevar e pegar no estojo de primeiros socorros para remendar o que se estragou ontem.
Estou tão cansado que já nem sinto vontade de reclamar "alto" com o mundo e com a cegueira que nele impera. Não vou cair na repetição do que acho que deveriamos ouvir, ver sentir... O ser humano tem de ser capaz de o fazer autonomamente, sem ajudas e sem alguém para o lembrar.
A nesga de luz que por vezes perfura a telha que nos reduz às sombras é uma bênção. Conseguimos por um instante vislumbrar como tudo poderia ser se... como se tivéssemos agido de maneira diferente nada estaria como... temos de olhar em frente e não esquecer as lições duramente aprendidas para que esta amostra de luz não mais nos abandone.
Os "ses" da nossa vida arrastam-nos constantemente para um estado quase catatónico perante a vida. Perdemos segundos preciosos a lamentar o que deveriamos ter feito ou não ter feito, esses segundos multiplicam-se em horas e em dias que sorrateiramente sugam o tempo que ainda nos resta. E depois se o emprego que temos não é o que queremos? E que tem estarmos de novo zangados com a nossa cara metade? E o que tem demais estar muito transito? Não param para pensar que o emprego ranhoso que temos permite-nos existir na sociedade e alimentar o carro que esgota o dinheiro pelo escape no meio do caos egoista das estradas em hora de ponta, que ainda nos faz chegar de novo atrasados para o jantar de familia agravado pela neura que acumulamos do dia-a-dia. Não param para disfrutar os escassos momentos que temos com aqueles que amamos porque ainda estamos absortos pela merda dos problemas que em nada contribuem para nós e para ninguém. Não respiram fundo, cheiram o ar da casa com uma amálgama de fragrâncias da pele dum filho, do cabelo da mulher do sofá manchado daquela vez que nos divertimos a ver o nosso rebento a comer o seu primeiro gelado. Não olhamos as paredes do corredor, testemunhas arranhadas das primeiras peças de mobilia que entraram por estas portas, por nossa escolha.
Não queria cair na repetição e caí...





Estou mesmo muito cansado e vou deixar que o sono apague de vez aquilo que despejo aqui e ali nas formas mais completas possiveis de exorcisar o negro.
O negro é a escuridão... medonha! Confortante. Lá estão todos os sonhos e medos que fazem de nós os maravilhosos seres pensantes com alma que ainda acreditam que as coisas vão melhorar.
Na escuridão encontramos a surdez dos factos e ansiamos pela melodia dissonante dos sonhos.
Será assim tão mau encontar o fim?